Sérgio Paulinho: “Um ano em Portugal e depois tentar regressar ao WorldTour”

Cerca de duas décadas de carreira, doze anos ao mais alto nível internacional, a vestir a camisola das melhores esquadras, ao serviço dos mais fortes líderes, erguendo os braços em duas etapas de Grand Tours e luzindo uma medalha olímpica. A carreira desportiva de Sérgio Paulinho é notável e em 2017 tomou um novo rumo no ciclismo lusitano.

Aos 37 anos, Sérgio Paulinho regressou ao pelotão nacional, depois de pedalar doze temporadas no pelotão internacional. Além-fronteiras construiu uma carreira invejável, sendo considerado um dos melhores gregários do WorldTour e sob a liderança dos maiores nomes internacionais, como Alberto Contador ao longo de dez temporadas e Lance Armstrong em três. Nessa travessia além-fronteiras, pertenceu sempre às melhores equipas mundiais: Liberty Seguros, Astana, Discovery Channel, RadioShack, Saxo Bank e Tinkoff.


Sérgio Paulinho momentos antes de iniciar o GP Mortágua (© Helena Dias)

Sérgio Paulinho viveu um ano de sonho antes da sua internacionalização. Precisamente em 2004, sagrou-se pela primeira vez em elite campeão nacional de contra-relógio, feito que repetiu em 2008. Venceu duas etapas com a equipa LA Pecol na Volta a Portugal, uma em linha com chegada a Gouveia e o contra-relógio individual a ligar a sua terra Oeiras a Sintra, fechando a prova rainha em 6º da geral e 2º da juventude.

Dias depois, nesse mesmo mês de Agosto de 2004, tornou-se no único ciclista português de toda a história a alcançar uma medalha nos Jogos Olímpicos, a prata na prova de fundo em Atenas, superado por 1 segundo pelo italiano Paolo Bettini e deixando atrás de si Axel Merckx, actual director desportivo da Axeon Hagens Berman, onde correm os gémeos Ivo e Rui Oliveira. Um feito inédito somente reconhecido pelas mais altas instâncias em 2016, sendo agraciado pelo ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

No campo internacional vestiu a pele de gregário, honrando este duro ofício através de performances irrepreensíveis, comandando o pelotão ou protegendo o seu líder dando a cara ao vento contra intempéries ou ataques dos rivais. A sua história funde-se à de Alberto Contador, ao ser um dos elementos-chave que ajudaram à construção das vitórias do campeão espanhol na Vuelta, Giro e Tour.

Mas não só de vitórias dos seus líderes se escreveu a carreira de Sérgio Paulinho. Pelos seus pedais deixou escritas nas grandes voltas duas vitórias lusitanas. Na Vuelta a España de 2006 ganhou a etapa que partiu de Avilés e chegou a Santillana del Mar ao cabo de 199,3 km, superando por 2 segundos Davide Rebellin (actual corredor da Kuwait-Cartucho.es) e Xavier Florencio (Bouygues Telecom). No Tour de France de 2010 triunfou frente a Vasil Kiryienka (actual corredor da Sky), na jornada de 179 km que ligou Chambéry a Gap.

Os números espelham bem o valor enquanto ciclista profissional. De acordo com o site Procycling Stats, Sérgio Paulinho esteve presente em 16 Grand Tours: 8 Vueltas a España (melhor CG 16º em 2006), 7 Tours de France (melhor CG 33º em 2009), 1 Giro d’Italia (CG 97º). Já nas famosas clássicas foram 11 as participações: 4 Il Lombardia, 4 Liège-Bastogne-Liège, 1 Paris-Roubaix, 1 Tour de Flandres e 1 Milano-Sanremo.

Como referimos ao início, a temporada de 2017 marcou o regresso de Sérgio Paulinho ao coração do pelotão nacional, um regresso pontuado de destacáveis performances, não fosse um dos melhores ciclistas a pedalar em território luso e espelhando-o no Ranking APCP Ciclista do Ano 2017, no qual ocupa o 4º lugar no final do mês de Abril. Nas provas até ao momento disputadas, esteve perto de alcançar a vitória na Clássica da Arrábida (2º) e na Clássica Aldeias do Xisto (4º), provas inseridas no Troféu Liberty Seguros, o qual terminou em 3º da geral, destacando-se ainda em 10º na Volta à Bairrada.

O Cycling & Thoughts esteve na última prova disputada por Sérgio Paulinho, o Grande Prémio Mortágua, onde o talento português nos falou sobre o regresso ao pelotão nacional.

“Tem sido bom. Tem sido uma experiência nova. É um ciclismo completamente diferente daquele que eu tinha feito nos últimos anos, mas estou a gostar bastante da experiência.”

O regresso fez-se pela equipa Efapel e o convite surgiu pelo director desportivo Américo Silva.

“Comecei a falar mais o Américo antes dos Mundiais, quando me perguntou se eu já tinha alguma coisa resolvida. Tinha-lhe dito que estava ainda em conversações com duas equipas, mas não tinha nada em concreto e, a partir daí, começámos a falar mais sobre o meu regresso a Portugal. Estava também com possibilidade de ingressar na Bora, mas ficou descartada e decidi aceitar a proposta da Efapel.”

Ainda no ano passado, em declarações à imprensa Sérgio Paulinho revelou a vontade de regressar ao pelotão português quando quisesse pôr término à sua carreira. Contudo, voltou atrás nessas declarações e explicou o porquê ao Cycling & Thoughts.

“Acho que foi numa entrevista durante o Mundial, estava no Qatar. O meu intuito de dizer que não queria regressar a Portugal foi de mostrar essa entrevista a algumas equipas para poder continuar no estrangeiro. Como soube que já era complicado, devido também ao final de temporada, decidi então regressar um ano a Portugal e depois tentar uma hipótese de regressar ao WorldTour para o ano. Mas se as coisas correrem bem este ano, quem sabe poderei fazer mais um ou dois anos em Portugal.”

Um dos objectivos da equipa Efapel em contratar o experiente ciclista é a obtenção do pódio na Volta a Portugal. Sérgio Paulinho confidenciou-nos as suas expectativas relativamente à prova rainha do calendário nacional.

“A minha expectativa é estar com os primeiros. Não digo que vou vencer, vou fazer os possíveis para estar com os primeiros e até tentar ganhar. Sei que há ciclistas bastante fortes com o mesmo objectivo, mas o meu objectivo é estar juntamente com eles durante as etapas e na disputa das etapas. No final, logo se verá. O resultado que eu conseguir, fico contente desde que tenha conseguido estar sempre a lutar até ao fim. Espero estar a discutir a Volta juntamente com os outros candidatos.”

O encerramento da estrutura Tinkoff deu início à procura de equipas por parte de todos os elementos da esquadra e com Sérgio Paulinho não foi diferente. Mas um episódio muito falado na imprensa portuguesa marcou o final da ligação com a equipa WorldTour, um telefonema em falta por parte do seu líder e amigo de longa data Alberto Contador.

“Isso é um assunto que muitas pessoas interpretam de uma maneira e outras de outra. Quando disse o que disse sobre o Alberto, só fiquei magoado num aspecto depois de todos estes anos… Durante o Dauphiné, disse-me que queria que eu fosse com ele [para a nova equipa]. Primeiro tinha de resolver a sua vida e depois fazia-me um telefonema a dizer a equipa para onde ia para eu falar com essa equipa. Esse telefonema nunca foi feito. A única coisa com que fiquei mais magoado foi nessa acção. As pessoas não pensem que por isso deixei de ter amizade com ele. É verdade que não falamos há bastante tempo, mas a minha relação com ele continua como antigamente.”

E na opinião de Sérgio Paulinho, é Alberto Contador um candidato à conquista de mais uma vitória no Tour de France este ano?

“Para mim, vai ser um candidato. Conseguir fazer a diferença que fazia antigamente, se calhar já vai ser mais difícil, porque nestes últimos anos o Froome tem sido o ciclista que tem sido no Tour. E agora começam a aparecer novos ciclistas também com grande potencial. Acho que o Alberto vai ser o ciclista que sempre foi, vai sempre dar luta, vai sempre dar espectáculo, mas se calhar vai ser mais complicado poder fazer um Top 3.”

Por estas palavras, considera Sérgio Paulinho que Christopher Froome é actualmente o corredor mais forte do pelotão?

“Para mim, sim. Nestes anos em que só se foca no Tour, embora durante o ano esteja presente noutras corridas, mas não na condição em que está no Tour, quando chega ao Tour faz toda a diferença. Como na altura o Lance [Armstrong] fazia, focava-se somente no Tour, chegava e fazia a diferença por estar mais fresco, por não estar nas outras corridas com aquele intuito de ganhar. Acaba por ser, neste momento, o ciclista mais forte, também pela equipa que tem. A Sky tem seis, sete corredores que podiam ganhar o Tour.”

Ao longo dos anos que pedalou no estrangeiro, Sérgio Paulinho esteve ao lado de inúmeros nomes do pelotão internacional. Um deles Michele Scarponi, ciclista italiano que perdeu a vida em consequência de um atropelamento enquanto treinava na sua terra Itália. Uma perda que abalou o mundo do ciclismo.

“O Scarponi era um amigo. Fomos colegas de equipa quando fui para a Liberty logo no primeiro ano e o Scarponi era um ciclista que estava sempre contente. Podíamos acordar mal dispostos, bastava estar 10 segundos com ele e já ficávamos bem por tudo aquilo que ele era. Para o ciclismo foi uma grande perda, é com bastante pena que perdemos um ciclista como o Scarponi e um amigo como ele. Mas há que olhar em frente.”

Numa carreira repleta de momentos únicos, há dois que Sérgio Paulinho guarda com maior carinho.

“Aqueles que mais destaco são a vitória na etapa do Tour e os Jogos Olímpicos de Atenas. Vão ser sempre aqueles dois dias que vão ficar marcados na minha memória para toda a vida.”

Sérgio Paulinho e equipa Efapel no GP Mortágua (© Helena Dias)

Equipa Efapel no GP Mortágua: Daniel Mestre, Sérgio Paulinho, Henrique Casimiro, Jesús del Pino, Alvaro Trueba, Bruno Silva e António Barbio (© Helena Dias)

Sérgio Paulinho (© Helena Dias)

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